MENU

PDF Download

A Não-me-toques! - Artur Azevedo

A Não Me Toques, conto de Artur de Azevedo, foi publicado em outubro de 1902, no Correio da Manhã. Conta a história de Antonieta, a "NãoMeToques", assim chamada por dispensar todos os pretendentes que seu pai lhe arrumava. Muito à frente de seu tempo, ela não queria se casar por dinheiro ou conveniência, mas por amor. Diante da morte dos pais, não viu outro jeito senão unirse em matrimônio com José Fernandes. Mas um trágico acontecimento está por vir. Um conto que tinha tudo para ser forte, mas escrito de forma leve que proporciona ao leitor uma leitura interessante.



A Não-me-toques! - Artur Azevedo - PDF Download

A Não Me Toques, conto de Artur de Azevedo, foi publicado em outubro de 1902, no Correio da Manhã. Conta a história de Antonieta, a "NãoMeToques", assim chamada por dispensar todos os pretendentes que seu pai lhe arrumava. Muito à frente de seu tempo, ela não queria se casar por dinheiro ou conveniência, mas por amor. Diante da morte dos pais, não viu outro jeito senão unirse em matrimônio com José Fernandes. Mas um trágico acontecimento está por vir. Um conto que tinha tudo para ser forte, mas escrito de forma leve que proporciona ao leitor uma leitura interessante.

Descrição do livro



A Não Me Toques, conto de Artur de Azevedo, foi publicado em outubro de 1902, no Correio da Manhã. Conta a história de Antonieta, a "NãoMeToques", assim chamada por dispensar todos os pretendentes que seu pai lhe arrumava. Muito à frente de seu tempo, ela não queria se casar por dinheiro ou conveniência, mas por amor. Diante da morte dos pais, não viu outro jeito senão unirse em matrimônio com José Fernandes. Mas um trágico acontecimento está por vir. Um conto que tinha tudo para ser forte, mas escrito de forma leve que proporciona ao leitor uma leitura interessante.

Sobre o Autor:



Arthur Nabantino Gonçalves de Azevedo (1855—1908) foi um dramaturgo, poeta, contista e jornalista brasileiro.

Escreveu cerca de duzentas peças para teatro e tentou fazer surgir o teatro nacional, a encenação de obras brasileiras. Como diretor do Teatro João Caetano, no Rio, encenou quinze originais brasileiros em menos de três meses.

Escreveu ainda: Sonetos (1876), Contos fora de moda (1901), Conto efêmeros, Contos possíveis (1908), Rimas (1909).

Para o teatro escreveu, entre outras: O Rio de Janeiro de 1877 (1878), A pele do lobo (1877), O Bilontra (1885), A Almanjarra (1888), O Dote (1888), O Badejo (1898), Confidências (1898), O Jagunço (1898), Comeu! (1901), A Capital Federal (1897).

A Não-me-toques! Artur Azevedo



I





Passavamse os anos, e Antonieta ia ficando para tia, não que lhe faltassem candidatos, mas infeliz moça! naquela capital de província não havia um homem, um só, que ela considerasse digno de ser seu marido.

Ao Comendador Costa começavam a inquietar seriamente as exigências da filha, que repelira, já, com desdenhosos muxoxos, uma boa dúzia de pretendentes cobiçados pelas principais donzelas da cidade. Nenhuma destas se casou com rapaz que não fosse primeiramente enjeitado pela altiva Antonieta.

— Que diabo! dizia o comendador à sua mulher, D. Guilhermina, estou vendo que será preciso encomendarlhe um príncipe!

— Ou então, acrescentava D. Guilhermina, esperar que algum estrangeiro ilustre, de passagem nesta cidade..

— Está você bem aviada! Em quarenta anos que aqui estou, só dois estrangeiros ilustres cá têm vindo: o Agassiz e o Herman.

Entretanto, eram os pais os culpados daquele orgulho indomável. Suficientemente ricos tinham dado à filha uma educação de fidalga, habituandoa desde pequenina a ver imediatamente satisfeitos os seus mais custosos e extravagantes caprichos.

Bonita, rica, elegante, vestindose pelo último figurino, falando correntemente o francês e o inglês, tocando muito bem o piano, cantando que nem uma primadona, tinha Antonieta razões sobejas para se julgar um avis rara na sociedade em que vivia, e não encontrar em nenhuma classe homem que merecesse a honra insigne de acompanhála ao altar.

Uma grande viagem à Europa, empreendida pelo comendador em companhia da esposa e da filha, completara a obra. Ter estado em Paris constituía, naquela boa terra, um título de superioridade.

Ao cabo de algum tempo, ninguém mais se atrevia a erguer os olhos para a filha do Comendador Costa, contra a qual se estabeleceu pouco a pouco certa corrente de animadversão.

Começaram todos a notarlhe defeitos parecidos com os das uvas de La Fontaine, e, como a qualquer indivíduo, macho ou fêmea, que estivesse em tal ou qual evidência, era difícil escapar ali a uma alcunha, em breve Antonieta se tornou conhecida pela "Nãometoques".





II

Teria sido realmente amada? Não, mas apenas desejada, tanto assim que todos os seus namorados se esqueceram dela...

Todos, menos o mais discreto, o mais humilde, o único talvez, que jamais se atrevera a revelar os seus sentimentos.

Chamavase José Fernandes, e era o primeiro empregado da casa do Comendador Costa, onde entrara aos dez anos de idade, no mesmo dia em que chegara de Portugal.

Por esse tempo veio ao mundo Antonieta. Ele viraa nascer, crescer, instruirse, fazerse altiva e bela. Quantas vezes a trouxera ao colo, quantas vezes a acalentara nos braços ou a embalara no berço! E, alguns anos depois, era ainda ele quem todas as manhãs a levava e todas as tardes ia buscála no colégio.

Quando Antonieta chegou aos quinze anos e ele aos vinte e cinco, "Seu José" (era assim que lhe chamavam) notou que a sua afeição por aquela menina se transformava, tomando um caráter estranho e indefinível; mas calouse, e começou de então por diante a viver do seu sonho e do seu tormento Mais tarde, todas as vezes que aparecia um novo pretendente à mão da moça, ele assustavase, tremia, tinha acessos de ciúmes, que lhe causavam febre, mas o pretendente era, como todos os outros, repelido, e ele exultava na solidão e no silêncio do seu platonismo.

Materialmente, Seu José sacrificarase pelo seu amor. Era ele, como se costuma dizer (não sei com que propriedade) o "tombo" da casa comercial do Comendador Costa; entretanto, depois de tantos anos de dedicação e amizade, a sua situação era ainda a de um simples empregado; o patrão, ingrato e egoísta, pagavalhe em consideração e elogios o que lhe devia em fortuna. Mais de uma vez apareceram a Seu José ocasiões de trocar aquele emprego por uma situação mais vantajosa; ele, porém, não tinha ânimo de deixar a casa onde ao seu lado Antonieta nascera e crescera.

III

Um dia, tudo mudou de repente.

Sem dar ouvidos a Seu José, que lhe aconselhava o contrário, o Comendador Costa empenhou a sua casa numa grande especulação, cujos efeitos foram desastrosos, e, para não fechar a porta, viuse obrigado a fazer uma concordata com os credores. Foi este o primeiro golpe atirado pelo destino contra a altivez da "Nãometoques".





A casa ia de novo se levantando, e já estava quase livre dos seus compromissos de honra, quando o Comendador Costa, adoecendo gravemente, faleceu, deixando a família numa situação embaraçosa.

Um verdadeiro deus ex machina apareceu então na figura de Seu José que, reunindo as suadas economias que ajuntara durante trinta anos, e associandose a D. Guilhermina, fundou a firma Viúva Costa & Fernandes, e salvou de uma ruína iminente a casa do seu finado patrão.

IV

O estabelecimento prosperava a olhos vistos e era apontado como uma prova eloqüente de quanto podem a inteligência, a boa fé e a força de vontade, quando o falecimento da viúva D. Guilhermina veio colocar a filha numa situação difícil...

Sozinha, sem pai nem mãe, nem amigos, aos trinta e dois anos de idade, sempre bela e arrogante em que pesasse a todos os seus dissabores, aonde iria a "Nãometoques"?

Antonieta foi a primeira a pensar que o seu casamento com José Fernandes era um ato que as circunstâncias impunham...

Antes da sua orfandade, jamais semelhante coisa lhe passaria pela cabeça. Não que Seu José lhe repugnasse: bem sabia quanto esse homem era digno e honrado; estimavao, porém, como a um tio, ou a um irmão mais velho, e ela, que recusara a mão de tantos doutores, não podia afazerse a idéia de se casar com ele.

Entretanto, esse casamento era necessário, era fatal. Demais, a "Nãometoques" lembravase de que o pai, irritado contra os seus contínuos e impertinentes muxoxos, um dia lhe dissera:

— Nã0 sei o que supões que tu és, ou o que nós somos! Culpa tive eu em darte a educação que te dei! Sabes qual é o marido que te convinha? Seu José! Seria um continuador da minha casa e da minha raça!

Tratavase por conseguinte, de homologar uma sentença paterna. A continuação da casa já estava confiada a Seu José: era preciso confiarlhe também a continuação da raça.





Assim, pois, uma noite ela chamouo e, com muita gravidade, pesando as palavras, mas friamente, como se se tratasse de uma simples operação comercial, lhe deu a entender que desejava ser sua mulher, e ele, que secretamente alimentava a esperança desse desenlace, confessoulhe trêmulo, e com os olhos inundados de pranto, que esse tinha sido o sonho de toda a sua vida.

V

Casaramse.

Nunca um marido amou tão apaixonadamente a sua esposa. Seu José levou à Antonieta um coração virgem de outra mulher que não fosse ela; fora das suas obrigações materiais, amála, adorála, idolatrála, tinha sempre sido e continuava a ser a única preocupação do seu espírito...

Entretanto, não era feliz; sentia que ela o não amava, que se entregara a ele apenas para satisfazer a uma conveniência doméstica: era apática; sem querer, fazialhe sentir a cada instante a superioridade terrível das suas prendas. Ninguém melhor que ele, tendo sido, aliás, até então, o único homem que lhe tocara, se convenceu de quanto era bem aplicada aquela ridícula alcunha de "Nãometoques".

O pobre diabo tinha agora saudades do tempo em que a amava em silêncio, sem que ninguém o soubesse, sem que ela própria o suspeitasse.

VI

Antonieta aborreciase mortalmente naquele casarão onde nascera, e onde ninguém a visitava, porque o seu caráter a incompatibilizara com toda a gente.

O marido, avisado e solícito, bem o percebeu. Admitiu um bom sócio na sua casa comercial, que prosperava sempre, e levou Antonieta à Europa, atordoandoa com o bulício das primeiras capitais do Velho Mundo.

De volta, ao cabo de um ano, construiu uma bela casa no bairro mais elegante da cidade, encheua de mobílias e adornos trazidos de Paris, e inauguroua com um baile para o qual convidou as famílias mais distintas.





Começou então uma nova existência para Antonieta, que, não obstante aproximarse da medonha casa dos quarenta, era sempre formosa, com o seu porte de rainha e o seu colo opulento, de uma brandura de cisne.

As suas salas, profundamente iluminadas, abriamse quase todas as noites para grandes e pequenas recepções: eram festas sobre festas.

Agora já lhe não chamavam a "Nãometoques"; ela tornarase acessível, amável, insinuante, com um sorriso sempre novo e espontâneo para cada visita.

Fizeramlhe a corte, e ela, outrora impassível diante dos galanteios, escutavaos agora com prazer.

Um galã, mais atrevido que os outros, aproveitou o momento psicológico e conseguiu uma entrevista Esse primeiro amante foi prontamente substituído. Seguiuse outro, mais outro, seguiramse muitos...

VII

E quando Seu José, desesperado, fez saltar os miolos com uma bala, deixou esta frase escrita num pedaço de papel:

Enquanto foi solteira, achava minha mulher que nenhum homem era digno de ser seu marido; depois de casada (por conveniência) achou que todos eles eram dignos de ser seus amantes. Matome.

(Correio da Manhã, 12 de outubro de 1902)

A Não-me-toques! - Artur Azevedo - PDF Download






More by SANDERLEY

TRENDS - SONG LYRICS
Radar by Sanderlei
Everything in the musical world / Tudo que rola no mundo musical / ทุกอย่างในโลกดนตรี / Все в музыкальном мире / 音楽界のすべて.

Just Go - Viagem Volta ao Mundo
#JustGo - Sanderlei Silveira